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O xerife que jogava por amor
O campo para ele era um faroeste onde fazia imperar sua cara de mau (o bigodão mexicano lhe dava um ar ainda mais intimidador) e seu jogo de marcação implacável e pegada forte, mas sem deslealdade. Mas Chicão não era apenas futebol força, sabia também jogar, pois nos anos 70 um volante não era um mero brucutu predador como muitos de hoje Claro, porém, que Chicão era mais garra, entrega e valentia. Só que, mais que um deus da raça, era um homem que amava, profundamente, aquela camisa branca com uma listra vermelha, outra preta, um escudo e mais nada. “Mais nada” porque eram ainda tempos em que os patrocínios não poluíam a camisa nem a alma dos grandes jogadores. A camisa que Chicão defendia não como se fosse sua segunda pele, mas como se fosse seu coração. Porque Chicão se mataria pela camisa do São Paulo caso fosse preciso. Na verdade, se matava a cada dividida e corrida destemida em busca dos meias e atacantes rivais. Meias e atacantes que temiam aquele xerife bigodudo da camisa 5 às costas porque, na verdade, era Chicão quem matava a jogada, na bola, quando o São Paulo era ameaçado. Na bola, e não com a maldade que tentaram lhe imputar no famoso "caso Ângelo", na decisão do Brasileiro de 77, contra o Atlético Mineiro, em Belo Horizonte: "Ângelo bateu muito naquele jogo. No segundo tempo, Minelli (então treinador do São Paulo) colocou o Neca... muito medroso. Numa jogada de contra-ataque, Neca esticou a jogada e com medo do Ângelo, levantou a perna, e atingiu Ângelo na canela (quebrando-lhe o osso da canela). Chicão estava longe da jogada e, achando que o Ângelo estava fazendo manha para que o juiz expulsasse o Neca, pisou no pé dele para que se levantasse. Chicão nunca foi violento, impunha respeito no seu jeito simples de jogar futebol", escreveu Fernando Rocha, no blog do jornalista Mauro Betting. O que fica de Chicão é a liderança e entrega ao clube que sempre amou. Para mim, fica do xerifão o pavor e respeito que semeava, e a alegria quando eu ganhava uma dividida, nas peladas da escola, e em seguida escutava um elogio mágico: “boa, Chicão!” E ser chamado assim, quando se é um garoto buscando afirmação no futebol e na escola, era mais que um elogio. Era honra, era ser alçado a condição de um precoce deus da raça. A raça que corria em todas as veias de um dos mais destacados volantes que esse país já teve. Sim, país, pois com a camisa da seleção brasileira, Chicão foi protagonista da batalha mais dura da história da Seleção: a batalha de Rosario, Argentina, na Copa de 78, quando em pleno terreno rival os brasileiros jogaram com uma raça "de argentinos" para conter... os argentinos. E ali, Chicão foi o grande general, um verdadeiro bicho endemoniado que não deixou, por exemplo, o cracaço Mario Kempes jogar, intimidando-o com um tapa na cara. O guerreiro com jeito de exército partiu anteontem, de câncer no esôfago, aos 56 anos. Será sempre lembrado como um dos pilares da primeira grande conquista do clube, o Campeonato Brasileiro de 1977, vencido O futebol por amor e com uma entrega comovente, em extinção hoje, sofreu mais um baque. Escrito por Zé Augusto Aguiar às 08h09 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Miss atenção
Ela não é a mais bonita, uma das musas de corpo perfeito de sua equipe, nem a melhor jogadora desse time. Não foi o alvo do assédio dos homens, encantados com o seu time nos últimos dez dias, em um torneio internacional (Salonpas Cup) disputado É fácil ser atencioso e simpático na hora das vitórias, sorrir para os fãs, vibrar, ir pra galera um pouquinho, compartilhar com a torcida na hora da festa. Mas quando a coisa pesa, quando a derrota chega, a maioria dos grandes nomes do esporte corre, não tá nem aí pro público que deu duro só pra ir vê-lo Guigui, jogadora da seleção italiana e do Pesaro, é diferente. É visível como é a líder de sua equipe, a mais respeitada pelas colegas e até pelo treinador, o nosso super bicampeão olímpico, Zé Roberto Guimarães. Pois Guigui, nas vitórias e derrotas de seu time, durante os dez dias da Salonpas Cup, fez exatamente a mesma coisa. Atendeu à torcida com uma simpatia quase inacreditável. Hoje Guigui teve que acordar de madrugada para disputar o terceiro lugar do torneio, às sete da manhã. Guigui e seu Scavolini perderam de 3 sets a zero (do Pinheiros-Mackenzie), assim como perderam ontem, na semifinal (para o Finasa). Após o fim do jogo de hoje, uma a uma as musas do Scavolini foram embora rapidinho da quadra sem atender a criançada que chegara ali cedinho. Gente humilde que deve ter acordado muito cedo, em pleno domingo e só pôde estar ali porque os ingressos eram de graça. Foram embora as musas, como a brasileira Jaqueline, campeã olímpica em Pequim, tão aplaudida durante todo o jogo. Jaque foi uma das primeiras a sumir. Outras a acompanharam, como a bela polonesa número 7. outras ficaram sentadas na quadra, conversando e alongando. Imaginei que ao final disso iriam atender a galera, pois estavam a poucos metros da grade. Nada. Lucia Lunghi, a líbero reserva, belíssima, que fora simpática em outros jogos, partiu sem olhar pra molecada. Apenas 3 atletas do Scavolini foram assinar as camisas e papéis da criançada. Primeiro vieram a líbero titular, uma baixinha holandesa, e uma das atacantes titulares, grandalhona. Nenhuma dessas duas é uma das musas. Em seguida veio Guigui. Pensei que ia ficar um pouco, assinar para alguns e sumir. Não. Guigui percorreu toda a extensão da grade que a separava dos torcedores, atendendo a todos. E não apenas assinou seu nome. Foi paciente para tirar várias fotos encostando seu rosto e dando um sorriso magnífico. Um magnífico sorriso de quem é uma estrela humilde. De quem é uma estrela de verdade. De quem não é bela só por fora. Não acreditava como ela ia caminhando lentamente, sem afobação e pressa, todo o fundo do ginásio, sendo especial com cada um que pedia. Fez isso porque ela é especial. Por isso é líder. Por isso seus olhos são tão expressivos. Por isso Zé Roberto parece falar diferente com ela, pois sabe que ela conhece bem demais o termo “equipe”, “grupo”. Sabe que ela é não só uma atleta mas uma mulher maravilhosa. Poucas vezes vi uma grande atleta ter tanta noção de como deve-se agir com a torcida. E olha que a torcida tinha sido toda contra ela, pois jogava contra um time brasileiro. Só que cada um que recebeu suas palavras, olhar e sorriso com certeza virou fã. E imagino a força e esperança que esses meninos e meninas a quem ela deu atenção terão para sonhar em ser jogadores de vôlei. E eu ganhei o dia sonhando em como esse mundo seria mais bonito se as pessoas-referência agissem como essa inesquecível Guigui.
Escrito por Zé Augusto Aguiar às 16h53 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Minha parceira
Bateu hoje no meio da novela, em uma cena aparentemente banal quando o surfista tava malzão porque sua prancha partiu ao meio. Ele tentava explicar que a menina machucada não era uma simples prancha, era sua parceira, de verdade. Companheira. Talvez só quem seja do surfe pra entender (e minha turma de Santos, que um dia conheceu, em plena aula, uma menina especial, de muita fibra...) a ligação forte demais entre um surfista e sua prancha. O caso é que a parada bateu fundo, porque muitas vezes penso se não é loucura os tapinhas carinhosos que dou na minha menina quando descemos pra praia sozinhos toda segunda-feira. Ela vai dentro do carro, ao meu lado, no banco da passageira. Aliás, carro não, dentro do Danilão (é, minha caranga tem o nome de um ex-ídolo tricolor, mas isso é outro papo). Talvez seja apenas coisas de surfistas solitários que sabem dar vida às meninas feitas com muita química, habilidade e arte por um shaper. E o Danilão, outro velho de guerra, não ajuda nada ao insistir em cantar na estrada aquelas velhas canções de um passado maravilhoso mas encerrado. O maluco sádico não perdoa, e dá-lhe então "These are the days", "Summer of 69" e outras canções que me levam bem longe em tempos de felicidade total. Graças que o remédio ou veveno da nostalgia é curado momentaneamente quando chego na praia com ela. Sim, dá pra sentir o alívio da meiga menina quando a tiro da capa, quando ela respira a maresia, quando ela dá uma sentadinha na areia olhando o mar enquanto dou uma alongada. Olhando a sua casa. Olhando o nosso refúgio. A minha fuga. Mas uma fuga que encontra. Que encontra as ondas mágicas desse final de manhã dessa segundona: longas, bem formadas, amadas. Amadas porque minha pequena inseparável e fiel me colocou nos lugares mais belos e perfeitos de cada onda. Porque ela sabe muito bem como me colocar nas melhores situações graças às suas formas perfeitas, leveza e velocidade. Com tantos atributos, minha prancha deveria ser minha namorada, mas é mais que isso. É um afeto diferente, ela parece mais uma criança que ainda gosta de passear de mãos dadas com o pai. Por isso minha prancha é minha filha. Por isso aquele R na ponta dela, inicial de uma das filhas que tive nas escolas por onde passei, que um dia me chamou de pai. Enquanto não rola uma filha de sangue, ainda tenho mais alguns meses para curtir as ondas estranhamente belas de uma praia um pouco suja. Mas talvez a razão dessas ondas serem tão boas seja a vizinhança. Perto delas vivem as almas tão limpas e belas de minhas "filhas" santistas e vicentinas, afetuosas meninas profundas como o mar. Moças que um dia adoraram bater um papo com minha pequena companheira amarela 6´2, uma doce moça carioca de nascença, parceira essencial desses anos cinzas que ela ajuda a colorir. PS - Mais que vangloriar-se de uma session incrível, em que acertou belas manobras, acho que todo surfista abençoado com uma prancha mágica deveria escrever uma carta de agradecimento ao mago shaper que cria uma prancha perfeita. Ainda vou escrever então para esse grande Roberto Bataglin. PS 2 - Um sonho: um dia escrever um livro e ver ele ilustrado com as fotos * mágicas da Rafinha, que saudade da pequena que deu nome a minha prancha-companheira. Talvez um livro sobre como o surfe nos ensina e ajuda a viver, na alegria e na tristeza. * A foto maravilhosa que ilustra esse texto eu recortei de uma foto dessa artista chamada Rafaela Corte Brilho.
Danilão adora cantar isso Escrito por Zé Augusto Aguiar às 22h15 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O homem-farol. Paul Newman
Ele foi um de meus primeiros heróis. Herói por tantas vezes trazer aquele sorriso incomparável e jeitão irônico mesmo quando estava na maior das enrrascadas. Enrrascadas incríveis como as em que se meteu naquele que é um dos maiores filmes de todos os tempos: Butch Cassidy & Sundance Kid, que estrelou junto do outro grande galã de seu tempo, um pouco mais moço, Robert Redford. Galã que Paul Newman sempre foi, mas um bonitão que ele nunca quis ser. Por isso preferiu sempre o papel do rebelde, indomável, desajustado ou trambiqueiro. Preferiu sempre não se esconder atrás do farol iluminado, verdadeiro imã, que tinha na face: os olhos azuis mais famosos da historia do cinema. Os olhos dos quais minha mãe, profunda investigadora do olhar do cinema e da vida real, tanto falava. Os olhos - tão vivos, expressivos e complexos, que provavam a cada filme a grandeza de quem sempre atuou primeiro com a janela da alma, só depois com o corpo. Porque Paul Newman, um dos últimos grandes, sempre foi um mestre da arte mais arrebatadora e popular do planeta, o cinema. E melhor ainda ele era quando fazia seu papel preferido, de bandido elegante, como fez Newman faleceu ontem aos 83 anos, vítima de câncer. Deixou a esposa, Joanne Woodward, com quem compartilhou mais de 50 anos de casado e uma das raras relações de famosos do cinema marcada pela fidelidade e amor tão transparentes e visíveis. Mas Paul Newman deixou também o legado de um homem de bem digno e solidário, que ajudou diversas instituições para jovens carentes, drogados e com outros problemas. E ele começou a fazer isso numa época, nos anos 70, em que isso era ainda pouco comum, talvez pelo trauma de perder seu filho, morto por overdose com 20 e poucos anos. Talvez porque era apenas um homem bom. Pena talvez que as novas gerações mal o conheçam. Se esse for seu caso, e você se considerar um amante do cinema, alugue agora os dois filmes que citei, que são essenciais para qualquer um entender a força de um sorriso, de um jeito de ser iluminado em tela, de um olhar. Porque Paul Newman nem precisava falar, se movimentar ou atuar, só bastava olhar que as telas já disparavam faíscas e a verdadeira aventura de viver. O cinema ficou bem mais pobre ontem. Perdemos um mito das telas e, mais do que isso, uma referência, um homem que só ensinava e legava o bem, algo raro demais no mundo das celebridades de hoje. O céu ficou mais azul.
* 1925 + 2008 Escrito por Zé Augusto Aguiar às 21h01 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Viajante do Tempo
Embarcar no túnel do tempo não acontece com qualquer um. Acontece apenas com aqueles que não desistem. Aqueles que um dia, mesmo depois de deixarem tudo para trás, percebem que estavam errados. Percebem que faltava algo dentro de si. Um algo chamado coração. Um algo que é na verdade a própria pessoa, em sua parte mais verdadeira, intensa, viva. Um dia ele deixou de fazer o que era a sua vida, até o seu apelido, que virou seu nome. Deixou seu esporte, seus sonhos, sua casa. Seu lar: a raia da USP. Foi embora para a praia viver uma vida gostosa, uma vida de ondas e paz, uma vida incrível chamada surfe. Encontrou nas ondas do Itararé o que pensou ser seu novo lar. O mar. Foram belas sessions, recheada de uma palavra-sentimento que ele desconhecia: liberdade. Liberdade de fazer o que bem entendia, sem horários, sem necessidade de madrugar para treinar, sem uma rotina insana que não lhe deixava tempo para curtir a noite, uma cervejinha, sem tempo para varar a noite com sua namorada. Agora era livre, ele pensou. Só não sabia que a liberdade era sua nova prisão. Uma liberdade que o afastava de seus sonhos e de seu coração de lutador incansável. Uma liberdade que o fez até mudar de fisionomia - ganhou uma cara redonda e uma barba largada de desencanado e de corpo (engordou, muito). Por isso nos assustamos naquela tarde na praia quando o visitamos depois de um bom tempo. Ali estava agora o homem livre, jovem livre, com todo o tempo do mundo para surfar, zuar, amar e viver. Não. Ali estava um homem bruto sem brilho nos olhos. Um ex-campeão. Um homem adormecido. Um dia ele deve ter acordado diferente. Talvez quando viu seus antigos companheiros brilhando no Pan do Rio, ou um pouco antes disso, quando acompanhou a preparação deles para o Pan. Talvez quando viu Rocky pela centésima vez. Talvez no meio de algum texto que escrevia em seu blog. Seu blog, um blog de esporte. Um blog sobre o esporte feito não só com o coração, mas com a alma. Só sei que ele voltou, há um ano atrás mais ou menos. Voltou para sua casa, seu lar, seu ninho. Voltou para a loucura dos treinos, horários e restrições de comida, bebida, noites. E por uma estranha magia ou amadurecimento percebeu que o que antes o pressionava agora lhe deixava leve. O cárcere dos treinos e vida regrada era a verdadeira liberdade. A liberdade de ser ele mesmo. A liberdade de voltar atrás e perceber que não poderia abandonar seu nome-apelido e tatuagem mais bonita. A tatuagem chamada “Remo”. Sim, receamos que ele demorasse demais para voltar a ser um atleta competitivo. Receamos que não conseguisse. Mas estivemos lá, torcendo, apoiando. Porque cada remada que voltava a dar era como se também voltássemos a acreditar e lutar também por nossas vidas, pelo melhor de nós. Talvez quando percebi que ele voltava para valer eu tenha voltado a acreditar em meus textos, em minhas palavras e no meu próprio amor ao esporte. Mas falemos dele. Hoje cedo estava frio, ventava, e ele enfrentava uma duríssima semifinal de um campeonato que talvez seja o com mais remadores que esse país já viu. Um super campeonato de skiff, de remadores sozinhos em seus barcos, mas acompanhados de seus corações que se multiplicam na raça e amor por esse esporte tão duro e brutal. Como um túnel do tempo, cheguei lá e não havia ninguém, apenas 4, 5 pessoas na arquibancada. Será que cancelaram as regatas, pensei? Mas não, de repente chega uma das semifinais, não entendo nada. Mas logo entendo que é o remo brasileiro, sempre com pouco público e divulgação. Procuro na organização uma relação das baterias semifinais, e descubro seu nome. Sim, ele está lá, sim, vai correr, sim, o sonho continua. Logo chega sua torcida. Duas pessoas. Sua mãe. Sua amada. Penso na hora Mas ele voltou, e vem com tudo, o underdog está faminto. Metade da raia e lá vem eles, raia cheia, 6 atletas. De repente olho lá pra raia 1 e não entendo: quem é aquele cara magro? Parece um menino. Será que é ele mesmo? É. O cara tá magro, seco, determinado mais que nunca talvez. Lutando mais que nunca, lutando em clube pequenino mas de tradição, lutando longe do apoio financeiro maior dos clubes mais badalados. Lutando junto de outros caras bons e guerreiros. E ele vai chegando bem demais, mantendo o segundo lugar, sendo atacado, mas segurando. E ele vai segurar a segunda posição até a meta final. Porque ele não está apenas segurando. Está amando. Amando cada remada. Cada dor que berra de seu corpo. Cada gota de sacrifício. Cada dia anterior que hoje ele deve perceber que não foram de sacrifício, mas sim de alívio e amor por ter voltou. E ele voltou. Está na final. Superou alguns dos maiores remadores do país e está de novo no lugar pelo qual sempre batalhou tanto. Está na final. E sabe que o final ainda está muito longe. Porque seu nome é Remo. Escrito por Zé Augusto Aguiar às 16h35 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O homem que não esquece
Ele foi onde muitos foram. Só que entre esses muitos, ninguém teve a sua coragem. Só ele entrou. Só ele foi valente o suficiente para entrar lá e resgatar um pouco das inúmeras alegrias e marcantes tristezas que aquele lugar deu a tantos. Não, ele não entrou, na verdade invadiu. Porque a Groenlândia não é mais a sua casa, como foi por tantos anos. Foi vendida há seis anos. A pequena escola da rua Groenlândia, verdadeiro lar, templo e até ninho de casais apaixonados, virou empesa que vende jazigos em cemitério. Sim, a escola da vida virou passagem para o fim. Mudança extrema e sinistra é pouco. Talvez por isso ninguém tenha tido a coragem de pisar ali de novo. Só mesmo um homem com memória - apegado aos sentimentos, amigos e amores mais verdadeiros - poderia encarar o sempre duro regresso. Aconteceu em mais uma noite fria deste inverno paulistano. Ele voltava do Parque do Ibirapuera, onde foi correr e libertar a mente do stress, pressão e outros sentimentos ruins de seu trabalho como publicitário iniciante de uma grande agência. Um trabalho que parece fazer mal a um homem com coração de menino, um pouco desprotegido da ganância, vaidade, egoísmo e tramóias do grande mundo publicitário. Por isso ele pedalava sua bike. Precisava do vento na cara e sentir os pés e pernas em vez de um frio chassi e motor. Precisava de algo ainda mais verdadeiro. Precisava de algo familiar, nem que fossem fantasmas do passado. Por isso parou em frente da escola desaparecida, hoje a tal empresa vendedora de caixões com endereço, mas ainda com a arquitetura dos anos incríveis preservada. Como estava muito escuro, não perceberam sua entrada. Ou talvez o túnel do tempo tenha sido tão poderoso que não conseguiram enxergá-lo enquanto vasculhava cada canto do lugar onde ele mais foi feliz na vida. Talvez porque tenha mesmo viajado no tempo. A seguir, conto o que ele me contou na semana passada, quando o encontrei por acaso numa esquina perto da minha casa, único lugar em que eu poderia tomar uma cervejinha tranqüilo, sem medo da lei seca. (Mas preciso fazer uma pausa e penso, “Crazy”, como diria um personagem de filme que adoro, " “Eu vasculhei cada canto, passei pela quadra, andei pelo pátio, subi as escadas, fui em cada janela, olhei dentro de cada sala de aula. E de repente as imagens começaram a bombar em minha cabeça O homem que não esquece lembrou-se de cada drible, gol, palavra, rostos, risadas, lágrimas. Lembrou-se, sobretudo, dos melhores amigos da sua vida. Aqueles que imaginava que ficariam do seu lado para sempre, e não tão distantes, como os que não encontram tempo para ele na vida nova de namorada firme e trabalho. Como os parceiros antigos de muita zueira, mas que hoje estão distantes porque ele está cada vez menos louco, da loucura que faz mal, e ainda tenta mostrar-lhes o caminho do esporte e de uma vida mais saudável. Lembrou-se, ainda mais, das meninas que lhe fizeram descobrir o amor mais puro e belo. Um tipo de amor que nunca mais encontrou. Talvez por isso tenha voltado para a Groenlândia. Para encontrar respostas nas ruínas e fantasmas do passado. Um passado que muitos deixaram para lá. (“Crazy!”, de novo o micro pira, o PC sentimental toca agora Creedence, numa canção sobre um cara que sai de casa e vai tentar conhecer a vida e se aventurar pelo mundo. Mas ele sabe que uma vela ficará acesa em sua casa se um dia quiser voltar. "Long as I can see the light", Enquanto eu puder ver a luz. Caraca, acabo de descobrir que meu windows media player tem além de memória, coração) Um passado que ele não deixa pra lá, mesmo que tente, pois, sim, ele tenta demais. Ele é um novo cara, dando duro no trampo que conseguiu sem ajuda do pai, por seu talento na criação. Novo cara se jogando todo fim de semana no wakeboard e durante a semana pedalando e abandonando os rolês noturnos. Tão novo cara ele é agora que me contou da sua preocupação com os amigos dos anos loucos: alguns continuam doidos e perdidos; outros parecem ter se acomodado e desistido de lutar por seus sonhos. Mas ainda bem que ele mudou mas conservou o mesmo coração de menino. O mesmo coração de quem sempre tratou seus brothers com o olhar amigo mais transparente e desprotegido que vi na vida. O olhar do homem que não esquece o menino que já foi. Que não esquece as crianças e jovens que um dia nós, os que tivemos o privilégio de conviver com ele, fomos de verdade. As pessoas mais vivas que fomos, naquele lugar que não existe mais, mas que ele ainda conserva lá dentro. Na hora em que ia começar esse último parágrafo, começa "My Hero". Lembro então exatamente da face meio assustada, meio iluminada dele contando das cenas que reviveu naquela noite mágica. Só posso acabar com estes versos, pra simbolizar o que representa para mim um cara que não esquece o tempo mais verdadeiro de nossos corações: ele vai embora e penso There goes my hero Watch him as he goes There goes my hero He is ordinary... (ele é simples como eu e você)... Nessa vida em que somos tão bombardeados pelo valor do presente e da modernidade, é sempre bom saber que ainda existem heróis-guardiões dos valores, sentimentos e experiências marcantes do passado. Escrito por Zé Augusto Aguiar às 22h08 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Linhas de um poema
A melodia tão leve e bela nos faz levitar e nos transporta para algum lugar aconchegante e materno como as ondas. As ondas desfrutadas como se os surfistas fizessem amor com elas. Um amor que é também arte, ballet, passeio de mãos dadas, pintura. Um amor parecido ao do jardineiro cuidando com carinho de um jardim. Porque as ondas, para um artista-amante do pranchão, serão sempre flores a serem cultivadas e cuidadas. Sim, mesmo nesse jardim selvagem e muitas vezes ameaçador chamado oceano, o surfista que tem alma e capta a essência do longboard será sempre um poeta a escrever com seus pés as mais belas linhas. A escrever seus poemas mágicos. Mágicos e artistas da vida como todos aqueles e aquelas que conseguem extrair das pequenas grandes coisas o máximo de emoção e significado. Às vezes essa arte e feeling intenso de viver brota em um simples olhar aconchegante de compreensão e afeto. Em um simples se aproximar, quando mais precisamos; quando de repente encostam a cabeça em nosso ombro como uma filha a dar sentido a um pai. Obrigado, pequena poeta, por sua arte amorosa. Keep surfing with your beautiful and rare soul. E escuta essa canção do filme de surfe "Lines from a poem", tão delicada como você. Escrito por Zé Augusto Aguiar às 16h33 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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