PÃO NA CHAPA  


Segundos eternos

    O encontro físico não durou meio minuto. O significado vale anos. Talvez dure para sempre. Antes das sete da manhã, eu ia para a escola, quinta passada, na correria de sempre. Eis que pela segunda vez a vejo, a moça tão especial, aquela que me deu o presente mais humano que recebi na vida, uma camiseta toda escrita a mão, por ela. Dessa vez deu para parar o carro. Um carro atrás grudou, não havia onde estacionar. Mas a chamei assim mesmo, o coração não podia esperar mais. Ela chega perto, se abaixa, e olha por dentro da janela. Está mais bonita que nunca e ainda mais bela por emitir um sorriso que pouquíssimos conseguem enviar quando reencontram uma pessoa querida. Um sorriso que poderia ser traduzido pelo mais sincero “que bom te ver”. Estendi o braço e ela apertou minha mão enquanto aquele sorriso, acompanhado de olhos doces, conseguia o absurdo de se iluminar ainda mais. E de me iluminar, ainda mais com a força e presença das que não esquecem e sentem uma saudade profunda da gente.

    Devem ser cenas como essa que a gente lembra nos momentos mais dramáticos de nossas vidas. São cenas como essa que salvam nossas vidas.

    Obrigado, moça que tem nome, coração e apelido de energia: Rá.


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 14h10 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





São Paulo 2, Guarani, 1

    E eu que achava antes do jogo que aquele time lá da Pompéia merecia vencer, pois tem jogadores que sabem tratar a bola, tocá-la e ainda mandar belos dribles e chutes. E não é que o verdão hoje se acovardou e não ofereceu maiores problemas a esse São Paulo tão fraquinho? Ah, mas e o gol de mão? Mesmo assim foi uma vitória indiscutível, conquistada muita pela raiva dos sãopaulinos frente às provocações e agressões dos verdes na última partida. A raiva sãopaulina virou raça e a marra verde virou medo nos pés e atitudes de Valdívia, o mago invisível (alguém viu ele em campo hoje?) e Kléber, que não ganhou uma dividida. Pra completar, não é que o bad boy bombadão resolveu dar mais o sangue e fez dois gols? Um de mão no melhor estilo Dieguito e outro numa falha grotesca de Gustavo, o grande “anfitrião” (vem, façam a festa...) da zaga verde. Agora sim o Adriano fez jus ao falso posto (Imperador) que ele acha que ostenta no mundo da bola. Mas pelo menos nesse pobre futebol paulista (é só assistir a um pouquinho da Champions League pra perceber diferenças abissais), quem manda agora é o imperador das baladas paulistanas. Mas calma, palmeirenses, vocês ainda tem o melhor time. Desde que não joguem como se fossem o Guarani, encolhidos e cheios de medo.

    Outros destaques hoje foram Rogério, como sempre, que fez duas grandes defesas, e o partidaço (no 1º tempo) de Hernanes, que mandou e desmandou no meio-campo e ganhou várias jogadas na coragem e categoria. Na etapa final, o São Paulo, depois do 2 a 0, como é típico em equipes do Muricy, se encolheu e fugiu do jogo. A fatura podia estar decidida, mas aí o seu Hernanes resolveu começar com suas frescuras (como ficar fazendo graça na entrada da área em vez de chutar logo); o Dagoberto mostrou a inutilidade de sempre (o rei das pedaladas grotescas que não dão certo); e o Pirulito fez aquele pênalti ridículo e deu uma grande chance para o Guarani da Pompéia.

    Ficou pra domingão. A Pompéia vai precisar injetar coragem se quiser ir pra final e fazer a obrigação de bater num time bem inferior tecnicamente, mas muito mais macho.


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 18h39 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





A partida que o futuro dirá que é lenda

    Não foi uma partida de futebol. Foi uma odisséia. Uma das mais dramáticas partidas da história, lembrando um pouco aquele inacreditável França e Alemanha da Copa de 82. Tudo que o São Paulo não tem, Bayern da Alemanha e Getafe da Espanha, tem e mostraram ontem em Madrid. No comecinho do jogo, o Getafe perdeu um jogador expulso e ficou com um a menos o jogo todo. Mesmo assim os espanhóis fizeram 1 a 0 e mantiveram a vantagem até o último minuto do jogo, quando o francês Ribery, o Scarface endiabrado, empatou para os alemães. Com o 1 a 1, o jogo foi para a prorrogação. E o Getafe, um pequeno clube espanhol dos subúrbios de Madrid, conseguiu fazer mais 2 gols e colocar 3 a 1. Mas depois o seu goleiro argentino, Abbondazzieri, falhou e o fabuloso artilheiro do Bayern, o italiano Luca Toni descontou. E o mesmo Toni, esse Toni com uma atuação brutal - de raça, técnica e luta - empatou, de novo, no finalzinho. Com isso classificou o Bayern para as semifinais da Copa da UEFA. Toni é tudo o que Adriano não é. Vejam o vídeo abaixo sobre o jogo, com narração espetacular da TV italiana, e depois leiam sobre o oposto disso tudo, o São Paulo de Muricy, Juvenal, Adriano e cia.


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 08h26 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Como acabar com um clube

    Sábado passado tive um raro prazer ao ver na TV o futebol vistoso do pequenino Banfield, equipe da periferia de Buenos Aires. O que vi? Toque de bola, redonda correndo suave no gramado, jogadores tabelando e até um menino entrando e de cara enfiando um chapéu pra cima de um experiente zagueiro do Boca Juniors. Vi mais futebol no Banfield corajoso em plena La Bombonera que em todos os jogos do covarde e feio São Paulo desse ano. Aliás, assistir a qualquer jogo do São Paulo é um suplício. Não há fanatismo que resista ao que essa diretoria e esse treinador fizeram com o nosso clube.

    Não dá par agüentar a ausência total de criatividade e toque de bola. Não dá para aturar um time incapaz de fazer uma tabela sequer. Não dá para torcer por um time que não tem um jogador capaz de tentar um drible envolvente, com arte. Não dá mais para perder o tempo com um time que tem uma única “jogada”: o chuveirinho na área pra ver se a bola bate no Boneco de Olinda (Adriano) e entra. Hoje, não agüento mais que um tempo de jogo, às vezes nem isso. Por isso ontem fui dormir aos 20 minutos do 1º tempo, logo depois do Richarlyson ser batido, como sempre, com extrema facilidade, e o Audax quase marcar o primeiro gol. Rogério salvou.

    Rogério, essa a única e última razão pela qual um sãopaulino ainda deposita algum respeito por esse clube. A penúltima razão era o lutador e sãopaulino de coração, Aloísio, uma daquelas raras figuras em extinção, do jogador que se entrega com alma a cada partida. Mas ele se machucou num pasto em Bragança Paulista e ficará 4 meses de molho.

    O resto do time é resto, com duas raríssimas exceções. Há um Hernanes, volante à moda antiga, forte, elegante e habilidoso, mas Hernanes já ostenta uma máscara precoce graças à seleção brasileira. Há um Jorge Wagner, jogador que sabe ocupar como poucos qualquer lugar do gramado, mas no São Paulo do pragmático Muricy, ele só serve para uma coisa: mandar a bola pra área.

    Do resto todo não há nenhum outro jogador acima da média, Miranda (falso craque da zaga, não ganha uma de cabeça, só sabe jogar na sobra) e Adriano (tanque imóvel) incluídos. E depois deles a coisa fica feia com Joílson e Juninho, Os Horríveis; André Dias O Lento; Richarlyson, O Ridículo; Borges, O Artilheiro dos jogos que não valem nada e sumido quando a hora esquenta; Dagoberto, O Pipoca; etc etc e outras farinhas do mesmo saco. E ainda há Hugo, que o Muricy pediu de volta (???), o Fábio Santos, que o Muricy mandou contratar (???) e graças a Deus está suspenso pela diretoria, o Carlos Marrento Firuleiro Fominha Alberto, outro supenso, por Deus!

    É tanto enganador junto que não dá pra entender porque o Muricy não dá mais chances aos meninos dos juniores: ao Sérgio Motta, que tem um passe e lançamentos que os meias que jogam não tem; ao atacante Erik, negro forte e goleador; ao lateral-esquerdo Diogo, um apoiador insinuante e habilidoso que lembra o grande Leonardo. O Diogo joga tanto que o Arsenal inglês o assedia faz tempo.

    O pior é que dá pra entender sim. O caso é que o Muricy é um dos treinadores mais medrosos do país. Prefere perder com os falsos medalhões que arriscar com os garotos. Ou alguém pode me explicar porque o Diogo nunca teve uma chance enquanto o Richarlyson segue fazendo uma partida terrível atrás de partida???

    Muricy não é o teimoso solitário. Divide a culpa com a diretoria, que ressalta sempre o valor das equipes de base e por outro lado fica trazendo jogador de aluguel. É, O São Paulo virou uma prostituta de jogadores que querem se reerguer na vida depois de aprontarem uma atrás da outra em outros lugares. Putz, mestre Telê deve estar se revirando lá em cima ao ver tanta bobagem, incompetência, medo e falta de futebol no clube onde ele ensinou tudo e hoje parecem ter esquecido tudo.

    Quem já viu o verdadeiro São Paulo, que praticava o fino do futebol arte nos anos Careca-Silas-Müller-Pita ou nos anos Leonardo-Raí-Palhinha-Müller; ou o futebol de raça e técnica de nossa última grande equipe, de Rogério-Lugano-Cicinho-Danilo-Luisão-Amoroso, não agüenta mais. Basta! Abandonem esse timinho. Porque domingo a vergonha será ainda maior nesse time sem técnica, sem habilidade, sem raça e sem alma.

    PS - Acordo hoje e constato a óbvia derrota e comentários: que o gol chileno foi em cima de Richarlyson, que o time não jogou bem (mas "mereceu vencer", segundo os cara de paus tricolores, porque dizem ter despediçado gols feitos; esquecem que gols feitos são perdidos, obviamente, por esses grossos que inundam o time!)


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 08h03 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Olhos de guitarra

    Foi quase entrando no túnel da Juscelino. A rádio manda os acordes iniciais com aquela cama sonora única, envolvente, que ocupa o carro e logo toda a mente e asfalto à frente. Aquelas notas estendidas no teclado ou levíssimo dedilhar de guitarra. Aquelas notas que crescem tanto, com suavidade e beleza, que até penetram as frestas da memória. Da memória mais profunda, do coração tão perto da alma. A canção é do U2 dela. Será que ainda é o U2 tanto tempo depois?

    A canção cresce, envolve, o mago toca cada nota de sua guitarra com uma convicção cristalina, e aquele teclado de fundo segue nos abraçando. Segue preenchendo cada espaço do carro, do caminho, da lembrança daqueles olhos que eram música.

    Daqueles olhos que não olhavam. Enxergavam.

    Não miravam. Batiam fotos, irradiavam, emitiam sinais. De vontade de aprender, viver e transmitir afeto.

    Daqueles olhos que eram dia nascendo a preencher cada aula com as cores de uma menina que sentia e queria tanto desfrutar de cada palavra e canção.

    Era tanto calor e luz tranqüilos, envolventes e vitais de fogueira de praia, que seu olhar era igualzinho ao jeito de tocar do seu mago, um artista chamado The Edge.

    Era tanta expressão quase calada (seus olhos gritavam) que ela conseguia pintar o ar que nos separava de verde.

    Da sua cor dos tempos em que era “apenas” uma árvore em crescimento com tantos frutos e galhos que poderia envolver o mundo.

    Envolvia o nosso pequeno mundo.

    Preenchia.

    Porque ontem eu descobri que seus olhos são acordes de uma guitarra mágica, with or without you.

    Mesmo quando o mundo diz o contrário (que as pessoas mudam com o tempo), as canções que mais amamos sempre voltam para nos fazer acreditar que nem tudo muda. Pois um olhar assim não muda, não pode perder a cor, a pureza, a paixão e a fé.

    Um olhar que era uma canção.

    Foi assim que me entreguei, no meio do túnel, com beleza e felicidade a uma lembrança maravilhosa

and you give yourself away
and you give yourself away
and you give
and you give
and you give yourself away

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Escrito por Zé Augusto Aguiar às 15h27 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Mais saudade: Pepê

    Os anos 80 foram uma época mágica do esporte. Tempo dos artistas e gênios da seleção de 82, de Falcão, Sócrates, Zico e cia; tempo do vôlei espetacular de Renan, Montanaro e William; tempo do cerebral Piquet da F-1, que ainda nos brindava com as loucuras e risco total do inesquecível Gilles Villeneuve. Para mim, sempre mais um fanático da bola que qualquer coisa (ainda mais com aquele seleção maravilhosa de Telê e meu São Paulo fantástico de Careca, Müller, Silas e Pita...) porém, não foram só os anos mais belos de nosso futebol, porque havia um certo Pepê. O homem com eterno sorriso de menino. O homem que voava e surfava e ainda arrumava tempo para vender sanduíche e suco natural e até virar empresário das ondas. Sobretudo, o homem-menino Pepê, um dos mais nobres esportistas que o Brasil conheceu. Um daqueles raros mitos inatacáveis, pelo talento de super atleta e caráter de super pai, super marido e super “gente fina” para todos que o conheciam o cara mais sangue bom da praia, do seu Rio de Janeiro. Atendendo ao pedido do irmão do sul, Maurio Borges, faço aqui uma homenagem então ao nosso Ícaro-Netuno, campeão no ar e no mar, que faleceu voando 17 anos atrás, em abril de 1991. 

    Pepê, o menino que flutuava. Um herói brasileiro.

    Hawaii, inverno de 1976. Ele parecia mais um passarinho que um atlético surfista com seus olhos e nariz pequeninos, rosto e corpo bem magros. Sim, Pepê Lopes era um menino franzino mas com alma, postura e coragem de toureiro, além de uma profunda experiência nos tubos de sua cidade natal, o Rio de Janeiro. Choque: os melhores surfistas do mundo não o conheciam. Por isso piraram com sua performance atirada e estilo impecável no grande evento do surf mundial da época (e de sempre), o Pipe Masters, na mítica e perigosíssima Pipeline.

    Epopéia. Numa Pipe clássica, Pepê foi derrotando feras como Mark Warren, Peter Townend, Shaun Tomson e Jeff Crawford. Na grande decisão, pegou duas belas ondas. Uma delas lhe valeu a segunda melhor nota da bateria, fazendo 17 pontos num máximo de 20 (apenas 1 ponto atrás de um certo Gerry Lopez, o gênio e mestre maior de Pipe). Depois, esperou pelas maiores da série, que não vieram. Acabou em sexto lugar, posição que só seria superada por um brasileiro (Renan Rocha) quase 25 anos depois. E o resultado poderia ter sido melhor, se as interferências livres e as sacanagens comuns na época de puxar a cordinha não o atrapalhassem. 

    A maestria de Pepê em Pipeline só pode ser explicada com o tesouro que ele encontrou do lado da sua casa. Aconteceu em algum dia especial de 1971, pertinho da sua morada na Rua Montenegro, na sua Ipanema local, Rio. Certo dia aquele lourinho cabeludo de 14 anos acordou, caminhou com sua prancha até a praia e não precisou fazer a boa caminhada habitual até as ótimas ondas do Arpoador, seu pico habitual. Pepê encontrou bem ali uma onda inacreditável que entraria para a história simplesmente como “o Píer”.

    O Píer foi a melhor onda do Rio de Janeiro e só nasceu devido à uma obra do governo. Funcionou entre 1971 e 1974, período em que um projeto de saneamento colocou tubulações de ferro no mar e estacas de madeira na areia. A obra não deu certo, mas a interrupção do movimento das areias de Ipanema de sul para norte criou ondas fantásticas. Primeiro nasceram esquerdas, depois surgiram também direitas. Ambas tubulares, pedindo um drop mais que atirado, lembrando Pipeline. O Píer propiciou grande evolução a toda uma geração. Quando o governo desistiu da obra, retirando as tubulações e estacas, a onda mágica acabou. Mas, para moleques como Pepê, o único garoto com permissão para disputar as sessions com os mais velhos, essa onda significou um verdadeiro doutorado em tubos perfeitos casca-grossa.

Ceceu no Píer (foto do site www.pierdeipanema.com.br)

    O Píer de Ipanema colaborou demais na formação do invejável currículo e estilo de Pepe, um toureiro, que se atirava nos drops mais profundos em completo abandono, sem medo. Além do Píer e da rainha Pipeline, Pepê dominou como poucos outra onda famosa, as morras de Itaúna, em Saquarema, 100 km do Rio. Na também mítica “Saquá” venceu duas vezes o Festival local (o campeonato brasileiro da época junto do Festival de Ubatuba). E logo seria o primeiro brasileiro a vencer uma etapa do Circuito Mundial (o “Waimea 5000”, no Rio, 1976), quando tinha apenas 18 anos.

    Desencanto. Pepê poderia se transformar num astro mundial do surf, mas o esporte tinha pouco apoio e divulgação na época no Brasil, e ele ainda ficou chateado com as estratégias vis que rolavam nas competições. Preferiu então uma modalidade ainda mais “radical” (a palavra da moda da juventude na época), realizando o sonho mais antigo do homens: voar, com sua asa delta.

    Essa é a história de Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes, um autêntico “Menino do Rio”* que exalava praia, mar, alegria e música para derrotar o baixo astral da época no Brasil (plena ditadura militar). Um super talento natural habituado a vencer e brilhar. E também a cativar, pela simpatia e coração. Além disso, diferente de outros craques do esporte que se perderam na vida, teve cabeça e saúde (passou longe das drogas) para criar e administrar negócios pioneiros e bem-sucedidos. Negócios como o sanduíche e suco natural na praia (sucesso primeiro no sítio onde pousavam as asas-deltas, em São Conrado; depois com uma barraca, na Barra da Tijuca, onde funciona até hoje); e ainda restaurante japonês e marca de surf, a Alternativa, em grande empresa (a antiga Mesbla), que foi responsável pela volta do mundial de surfe ao Rio nos anos 80. 

    As conquistas de Pepê, o campeão que virou super-herói pelas proezas no mar ou céu (no vôo livre), começaram porém em outra modalidade, o hipismo. Ainda na categoria mirim tornou-se campeão carioca, naquela que foi, para ele, a mais perigosa modalidade que praticou. Domar Pipeline com 15 pés ou estar sozinho na imensidão do céu, sujeito às intempéries súbitas, como ventos fortíssimos e tempo encoberto? Pepê afirmava não ter medo, porque isso sentia era quando tinha que segurar um animal de centenas de quilos no braço e ainda fazê-lo pular obstáculos bem altos. Coisas do mito... Coisas de um aventureiro que surfou várias vezes no Peru, Hawaii, Austrália, Europa e Indonésia.

    A imensidão do mar foi pouca. Alma pura e sonhadora, Pepê precisou de uma liberdade ainda maior. Foi voando então que ele conquistou o mundo, campeão mundial de vôo livre em 1982, no Japão. Foi voando que quase morreu anos depois, em Governador Valdares, quando caiu e um toco perfurou sua barriga. Perdeu o baço, depois o rim. Sobreviveu, talvez para conhecer o máximo de felicidade que poderia experimentar.

    Felicidade que explode na mais bela foto que vi na vida: retratado pelo fotógrafo Marcos Bicudo, Pepê está meio agachado, de braços abertos e sorrindo, escancarado, como só um pai pode fazer. Indo em direção a ele, parecendo correr meio desequilibrada mas decidida, uma menininha linda está de costas, cabelos encaracolados. Sua filha. Pequenino anjo louro correndo para os braços do pai, outro anjo. O surfista que, antes da invenção dos aéreos, voava mais que qualquer manobra possível nas ondas.

    Não podemos ver o rosto todo da menina, mas há algo ali que nos faz sentir que também sorri. Ou que é parte do sorriso de Pepê, sempre iluminando uma onda, uma praia toda, sua Cidade Maravilhosa e todo menino ou jovem brasileiro da época que sabia o que eram sonhos, ondas e super-heróis.

    Pepê se foi aos 33 anos, voando no cinzento 4 de abril de 1991, durante o Campeonato Mundial no Japão. Não conseguiu evitar seu destino: passarinhos morrem cedo. Sua luz permaneceu. Anjos são eternos.

                                                         

    * Nome de famosa canção de Caetano Veloso inspirada em Petit, um surfista

contemporâneo de Pepê.

    ** Uma bela matéria sobre o mito foi feita pela revista Trip, com destaque para vídeos de Pepê. Entre em http://revistatrip.uol.com.br/152/pepe/home.htm

Pepê 


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 20h56 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





40 anos sem um sonho

    “Eu tenho um sonho, que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter...”

    Martin Luther King sonhou e lutou por um mundo em que as pessoas não são diferentes por sua cor, classe social ou etnia. Conseguiu acabar com as leis racistas que existiram nos EUA até os anos 60. É seu o talvez mais belo discurso da história, o famoso I have a dream, Eu tenho um sonho. MLK foi assassinado há exatos 40 anos, em 4 de abril de 1968. Foi vítima de um atirador branco. O assassino garantiu ser apenas o encarregado final de uma conspiração do governo conservador americano, na época pressionado pela sociedade pelos conflitos raciais e Guerra do Vietnam. O complô de Washington jamais foi provado...

    * Décadas depois, o U2 criou um verdadeiro hino em sua homenagem. O vídeo, com a letra traduzida, está aí embaixo.

   


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 21h41 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Tempo

    Foram embora em dezembro. Só poucos meses atrás? Já parecem anos. Cada mês traz saudades, lembranças e a torcida para que continuem com os mesmos sonhos e matérias-primas de seus corações puros e valentes. Tempo. Nos descuidamos dele e de repente os dias sem nos vermos se tornam semanas. Meses. Logo, um semestre. Logo, um ano e a passagem deles. O fluxo da vida. Implacável. Sim, a gente não esquece, pensam os que partiram. Só que os jovens marinheiros não sabem que a equação tempo + silêncio, cada vez que aumenta suas duas variáveis, vira borracha.

    Sim, o coração resiste ao tempo. Sim, a vida muda, temos outras preocupações e objetivos... Blá blá blá que vai batendo nos afetos e lembranças, até sobrar pouco, até desaparecer com relações que deveriam permanecer. 

    Ah, esqueçam, toquem suas vidas. Só tomem cuidado com a rádio Kiss, aquela que sempre nos lembra, mesmo quando a lembrança quer fugir. Foi hoje de manhã, pertinho daquele lugar. Começou a tocar Barão, Cazuza, Meus bons amigos, onde estão?


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 17h58 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Segundas sagradas

Vai, Barbudo! (...)

    A oportunidade veio em janeiro. A primeira idéia, claro, foi: depois do trabalho, surfe! Desde fevereiro então dou aulas de redação pra molecada do 8º e 9º ano da Escola Americana de Santos. Só ontem, porém, entendi o significado, enquanto caminhava pela areia macia e respirava o ar puro já em direção à ducha de água doce pós-surfe. Pós-surfe de gala: um metrão clássico. Um metrão sem preferências políticas: direitas e esquerdas longas, perfeitas. As ondas de uma Itararé clássica, a onda de São Vicente vizinha do canal 1 e Quebra-Mar santista. 

    O que predomina em Itararé é a paz. É o respeito. É o não se jogar para cima do brother ao lado no pico. É esperar sua vez com um sorriso no rosto e paciência no coração. Talvez porque as segundas-feiras vicentinas guardem uma mágica coincidência este ano: são os dias das melhores ondas. São os dias das séries sem fim e uma fartura de estradas líquidas como não curtia há um bom tempo no meu pico local, um pouco mais distante, no litoral norte.

    Talvez seja mais que coincidência. Ontem na aula levei uma amiga pra tentar transmitir pra galera do 9º ano algo a mais sobre respeito, dedicação e futuro. Depois de minha parceira, minha prancha querida falar com a moçada (sim, um dia explico isso, mas não tô louco não, porque as pranchas que amamos falam e sentem, muito), comecei a contar alguns causos surfísticos. Causos reais como o de meu grande irmão de ondas do passado, o Gutão, que sempre levantava os braços e gritava para o horizonte tentando chamar e acordar o senhor do oceano, Netuno. Contei como ele conseguia acordar o Barbudo em dias de ondas fracas e receber algumas belas paredes depois de seus pedidos. Giulia não acreditou, “ah, é só coincidência”. E todas as outras meninas optaram pelo mesmo caminho.

    Quase todas. Não a loura e a pequenina. Giovanna olhava intrigada e depois, com coragem, disse que já pedira muitas vezes para algo acontecer na vida dela. Mas não dera certo. Pelo menos tentou, moça, e isso é o mais importante.

    O mais importante foi nomeado com beleza e precisão por Juliana: “não é coincidência. É fé.”

    A fé nas ondas e na vida do Gutão, o ex-jovem de quem muitos duvidaram no passado. Ex-garotão despreocupado que hoje está quase se formando em Educação Física e já estagia com dedicação e amor na mesma escola em que trabalho. Trabalho que devo a ele, meu ex-aluno de Sampa, pois me indicou com especial referência.

    Coincidência ou o destino que os homens do mar traçam?

    Coincidência ou fé?

    Ontem passei mais uma manhã maravilhosa na conexão Santos-São Vicente. Uma conexão de respeito, carinho (não sei se meus novos alunos e alunas já perceberam o que pretendo fazer com eles e elas em minhas aulas), educação e, sobretudo, muito amor e luta: para escrever, discutir, pensar, surfar e viver.

    Um surfista, mesmo trabalhando em uma sala de aula, será sempre um surfista. Foi ontem então que percebi que nessa nova escola há meninas e meninos já conseguindo fazer o mais difícil: surfar com seus corações em simples aulas de redação.

    Com seus corações e fé.

    Com o respeito que vocês já têm de mim por agüentar um maluco dando voz pra sua prancha e ainda entenderem.

    E ainda participarem e olharem como ontem.

    Viver é essa troca intensa, moçada. É essa entrega. É tentar fazer das palavras, canções e das aulas, encontros.

    É sempre muito bom me encontrar com vocês.  

 


Escrito por Zé Augusto Aguiar às 14h37 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, ALTO DE PINHEIROS, Homem, de 36 a 45 anos





     
     




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